Vejo-te mas não te sinto
Sinto-te mas não te tenho
Tenho-te mas não te conheço
Conheço-te mas não te quero
Sei que me aguardas, Morte
És o destino que me espera
Não tenho medo, simplesmente acho cedo
Tenho tanto para ver, tanto para sentir
Tanto para ter, tanto para conhecer
Não me queiras já, não me seduzas ainda
Deixa-me vaguear um pouco mais
Adia a minha hora derradeira
E que essa viagem se revele no fim como um novo começo.
Thursday, August 28, 2008
Monday, August 18, 2008
Para onde me sopras?
Por vezes sinto-me na vida como uma folha ao vento. Arrancado da Árvore, vou andando consoante os acontecimentos, soprado daqui para acolá, sem conseguir perceber muito bem se a minha existência tem um destino ou apenas múltiplas etapas. Enquanto isso não se torna claro, apenas existo, vagueando ao sabor do vento, o qual por vezes me conduz ao contacto com as pessoas. Tocado por muitos, compreendido por poucos, sinto cada vez mais saudades do local que não conheço e que nunca alcançarei, mas onde estou certo encontraria a paz. Resta-me esperar pelo derradeiro contacto, com a Terra, de onde poderei finalmente olhar para o alto, para a minha origem, e questionar-me se o que fiz me conduziu ali ou apenas terá sido fruto do acaso. E talvez aí saiba se tudo foi em vão.
Monday, June 09, 2008
Para sempre - II
Era a cena perfeita, mãe e filho brincando no meio da relva, indiferentes a tudo e todos à sua volta. Quantas vezes já tinha presenciado aquele cenário? Quantas vezes mais iria presenciar? Ela sorridente, atenta a todos os gestos do filho, ele deliciado por ter ali a mãe, só para ele, como se o tempo tivesse parado, sem sentido. Para ele não havia horas, nem dias, nem anos, apenas uma deliciosa e perpétua brincadeira.
Não olhavam para ele, nem mesmo quando o seu rosto se encheu de lágrimas. Era sempre assim. Não suportava mais ver e, no entanto, dia após dia ali estavam eles, a brincar como se nada fosse. Era como se o seu coração fosse esmagado, carregando consigo uma culpa desconhecida.
De repente ela levantou-se e caminhou na sua direcção. Como era linda, em todos os pormenores, desde o sorriso até à forma de andar. Chegou ao pé dele, com um sorriso triste e preocupado, pegando-lhe suavemente na mão:
- Meu amor, isto está a matar-te. Peço-te, deixa-nos ir. Tinhas-me prometido que era a última vez...
Ele abraçou-a, com toda a força que tinha, gritando-lhe:
- Não consigo!
Foi então que acordou. Estava sozinho no quarto, tendo por única companhia aquele Deus em que já não acreditava. Já tinham passado mais de 5 anos desde que tinha perdido a sua família, naquele desastre de avião, mas não havia um só dia em que o seu pensamento não os encontrasse. Tudo o torturava, o não lhe ter dado mais um beijo, o não ter tocado no cabelo do filho uma vez mais, o continuar sem perceber o porquê de lhe ter sido arrancado tão brutalmente tudo aquilo por que alguma vez sentiu amor.
Amor... que ironia. Era precisamente esse o motivo apontado na carta de despedida do louco que fez explodir o avião onde mãe e filho viajavam. Que amor? Que Deus? Que vida lhe restava? Voltou a deitar-se, tentando voltar a vê-los. Uma vez mais...
Não olhavam para ele, nem mesmo quando o seu rosto se encheu de lágrimas. Era sempre assim. Não suportava mais ver e, no entanto, dia após dia ali estavam eles, a brincar como se nada fosse. Era como se o seu coração fosse esmagado, carregando consigo uma culpa desconhecida.
De repente ela levantou-se e caminhou na sua direcção. Como era linda, em todos os pormenores, desde o sorriso até à forma de andar. Chegou ao pé dele, com um sorriso triste e preocupado, pegando-lhe suavemente na mão:
- Meu amor, isto está a matar-te. Peço-te, deixa-nos ir. Tinhas-me prometido que era a última vez...
Ele abraçou-a, com toda a força que tinha, gritando-lhe:
- Não consigo!
Foi então que acordou. Estava sozinho no quarto, tendo por única companhia aquele Deus em que já não acreditava. Já tinham passado mais de 5 anos desde que tinha perdido a sua família, naquele desastre de avião, mas não havia um só dia em que o seu pensamento não os encontrasse. Tudo o torturava, o não lhe ter dado mais um beijo, o não ter tocado no cabelo do filho uma vez mais, o continuar sem perceber o porquê de lhe ter sido arrancado tão brutalmente tudo aquilo por que alguma vez sentiu amor.
Amor... que ironia. Era precisamente esse o motivo apontado na carta de despedida do louco que fez explodir o avião onde mãe e filho viajavam. Que amor? Que Deus? Que vida lhe restava? Voltou a deitar-se, tentando voltar a vê-los. Uma vez mais...
Tuesday, April 08, 2008
Quanto valem os Direitos Humanos?
A propósito do possível boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, ouvi ontem as palavras do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Foi com incredulidade que o ouvi afirmar que é utópico pretender isolar a China pois ela é demasiado grande, e o mundo precisa dela.
Não está aqui em causa o boicote ou não, cuja eficácia até seria mínima, mas o verdadeiro alcance destas palavras. É raro um político ter esta coragem, de dizer abertamente que os interesses económicos estão acima dos direitos humanos. Fosse um qualquer país insignificante, pois viriam as sanções económicas, as declarações inflamadas sobre a obrigatoriedade de respeitar os direitos humanos, as ameaças de isolamento. Mas tratando-se de um país com mais de um bilião de consumidores, o discurso suaviza-se, outros valores entram em cena, afinal não convém incomodar o gigante.
No fundo, o que pesará na consciência o esmagar de um qualquer povo perdido nos Himalaias, comparado com a possibilidade de maltratar a nova galinha dos ovos de ouro? Pouco ou nada, certamente, e outras oportunidades haverão para os políticos manifestarem a sua faceta humanista, oportunidades que não mexam com a ordem vigente.
Pois a mim dói, quase tanto como o sentimento de impotência com que ouço as palavras e presencio os actos. Resta-me o desprezo absoluto para com essa raça que nos governa, e que quase nos faz esquecer que antes de consumidores somos pessoas.
Não está aqui em causa o boicote ou não, cuja eficácia até seria mínima, mas o verdadeiro alcance destas palavras. É raro um político ter esta coragem, de dizer abertamente que os interesses económicos estão acima dos direitos humanos. Fosse um qualquer país insignificante, pois viriam as sanções económicas, as declarações inflamadas sobre a obrigatoriedade de respeitar os direitos humanos, as ameaças de isolamento. Mas tratando-se de um país com mais de um bilião de consumidores, o discurso suaviza-se, outros valores entram em cena, afinal não convém incomodar o gigante.
No fundo, o que pesará na consciência o esmagar de um qualquer povo perdido nos Himalaias, comparado com a possibilidade de maltratar a nova galinha dos ovos de ouro? Pouco ou nada, certamente, e outras oportunidades haverão para os políticos manifestarem a sua faceta humanista, oportunidades que não mexam com a ordem vigente.
Pois a mim dói, quase tanto como o sentimento de impotência com que ouço as palavras e presencio os actos. Resta-me o desprezo absoluto para com essa raça que nos governa, e que quase nos faz esquecer que antes de consumidores somos pessoas.
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Thursday, March 20, 2008
Para sempre - Parte I
Acordou sobressaltado. Olhou para o relógio, faltavam alguns minutos para as 3 da madrugada. O avião rasgava agora os céus em pleno Índico, indiferente à paisagem e ao seu destino.
Olhou para ela, a sua companheira de toda a vida. Como ele gostava de a ver dormir, com aquela calma que só emana das pessoas puras. Que paixão ele continuava a sentir por aquela mulher, que as rugas e alguns cabelos brancos teimavam em tentar envelhecer.
A sua paixão não foi um caso de amor à primeira vista, tiveram a felicidade de ser primeiro amigos, amizade essa que continuava a ser a trave mestra do seu relacionamento. Ainda hoje discutiam quem se tinha apaixonado primeiro, revivendo todos os momentos antes do primeiro beijo. Nunca conseguiam chegar a consenso, apenas que a paixão sempre esteve lá, escondida, à espera do momento certo para se revelar.
Quanto a ele, sabia perfeitamente qual tinha sido o momento, na casa de férias de uns amigos. Ela tinha-se encostado à ombreira da porta, ficando a olhar para um jogo qualquer com que alguns se entretinham, e ele ficou a observá-la. O aperto no peito, o disparar do coração não lhe deixaram dúvidas, era aquela a mulher com quem queria viver todas as vidas.
Tinham sido felizes até então. E para isso bastava cumprirem a única jura que fizeram, amar-se e envelhecer um junto ao outro. Mas isso estava prestes a terminar... O que mais o enraivecia era a impotência para lutar contra o destino, vontade divina ou entidade que realmente regia as suas vidas.
Acariciou-lhe os cabelos, deu-lhe um beijo na face e sussurrou-lhe:
- Procura por mim na próxima vida...
E o avião explodiu.
Olhou para ela, a sua companheira de toda a vida. Como ele gostava de a ver dormir, com aquela calma que só emana das pessoas puras. Que paixão ele continuava a sentir por aquela mulher, que as rugas e alguns cabelos brancos teimavam em tentar envelhecer.
A sua paixão não foi um caso de amor à primeira vista, tiveram a felicidade de ser primeiro amigos, amizade essa que continuava a ser a trave mestra do seu relacionamento. Ainda hoje discutiam quem se tinha apaixonado primeiro, revivendo todos os momentos antes do primeiro beijo. Nunca conseguiam chegar a consenso, apenas que a paixão sempre esteve lá, escondida, à espera do momento certo para se revelar.
Quanto a ele, sabia perfeitamente qual tinha sido o momento, na casa de férias de uns amigos. Ela tinha-se encostado à ombreira da porta, ficando a olhar para um jogo qualquer com que alguns se entretinham, e ele ficou a observá-la. O aperto no peito, o disparar do coração não lhe deixaram dúvidas, era aquela a mulher com quem queria viver todas as vidas.
Tinham sido felizes até então. E para isso bastava cumprirem a única jura que fizeram, amar-se e envelhecer um junto ao outro. Mas isso estava prestes a terminar... O que mais o enraivecia era a impotência para lutar contra o destino, vontade divina ou entidade que realmente regia as suas vidas.
Acariciou-lhe os cabelos, deu-lhe um beijo na face e sussurrou-lhe:
- Procura por mim na próxima vida...
E o avião explodiu.
Thursday, March 06, 2008
E quem se importa?
Quando faço o trajecto de casa para o emprego, gosto de aproveitar esse tempo, observando as pessoas, lendo, pensando, sonhando. Ficarei bastante triste se alguma vez me aperceber que o tempo passado nos transportes se resume a isso, tempo passado. Sou da opinião que devemos aproveitar todos os momentos, mesmo aqueles que aparentemente são desprovidos de interesse.
Um dos meus pequenos prazeres é ouvir música, e por vezes gosto de vir com os meus headphones, saboreando a música que seleccionei. E há dias em que me sinto particularmente bem disposto, pelo que não é raro subir as escadas ao som do ritmo dos sons. Causa-me estranheza os olhares que por vezes me deitam, como se eu fosse algum bicho estranho por exibir um sorriso ao caminhar, por deixar que a música comande os meus passos. Os olhares recriminadores, que soam a “já não tem idade para fazer aquilo”, “deve ser parvinho, a dançar na rua” ou “que tristeza, a comportar-se desta maneira” fazem-me pensar: quem é o verdadeiro triste nesta história? Aquele que não tem receio de demonstrar que está de bem com a vida ou aquele que rejeita tudo o que saia do lugar comum, da carneirada que parece ser o padrão “normal”?
Li em tempos que o verdadeiro Homem é aquele que em adulto conserva o coração duma criança. Acredito nisto com todas as minhas forças e garanto que não serás tu, povo triste, a fazer-me mudar de opinião.
Aproveitem a vida!
Rafael
Um dos meus pequenos prazeres é ouvir música, e por vezes gosto de vir com os meus headphones, saboreando a música que seleccionei. E há dias em que me sinto particularmente bem disposto, pelo que não é raro subir as escadas ao som do ritmo dos sons. Causa-me estranheza os olhares que por vezes me deitam, como se eu fosse algum bicho estranho por exibir um sorriso ao caminhar, por deixar que a música comande os meus passos. Os olhares recriminadores, que soam a “já não tem idade para fazer aquilo”, “deve ser parvinho, a dançar na rua” ou “que tristeza, a comportar-se desta maneira” fazem-me pensar: quem é o verdadeiro triste nesta história? Aquele que não tem receio de demonstrar que está de bem com a vida ou aquele que rejeita tudo o que saia do lugar comum, da carneirada que parece ser o padrão “normal”?
Li em tempos que o verdadeiro Homem é aquele que em adulto conserva o coração duma criança. Acredito nisto com todas as minhas forças e garanto que não serás tu, povo triste, a fazer-me mudar de opinião.
Aproveitem a vida!
Rafael
Friday, February 22, 2008
Quanto vale uma vida?
41 segundos, é a resposta. Pelo menos a avaliar pelo comportamento que frequentemente presencio na Estação de Comboios do Cacém. 41 segundos é o tempo que demora um comboio a abandonar a estação, deixando o caminho livre para as pessoas atravessarem em segurança para o outro lado. No entanto, são inúmeros os indivíduos que arriscam a vida, correndo à frente do comboio para poderem poupar 41 segundos.
Algo está mal nesta situação. Quando o Homem nega o seu instinto mais primário, o da sobrevivência, para poder poupar tempos ridículos, é sinal que os nossos valores estão enfermos. Quem nunca sentiu que arriscou por nada, fosse por ter atravessado com o sinal vermelho, fosse por ter feito uma ultrapassagem mais ousada, fosse pelo que fosse?
Estará o valor da vida humana tão em baixo que nos damos ao luxo de a pôr em jogo por insignificâncias? Talvez seja chegada a hora de repensarmos o que andamos cá a fazer, porque certamente não é para sermos tão levianos com a dádiva que nos foi concedida.
Aproveitem a vida!
Rafael
Algo está mal nesta situação. Quando o Homem nega o seu instinto mais primário, o da sobrevivência, para poder poupar tempos ridículos, é sinal que os nossos valores estão enfermos. Quem nunca sentiu que arriscou por nada, fosse por ter atravessado com o sinal vermelho, fosse por ter feito uma ultrapassagem mais ousada, fosse pelo que fosse?
Estará o valor da vida humana tão em baixo que nos damos ao luxo de a pôr em jogo por insignificâncias? Talvez seja chegada a hora de repensarmos o que andamos cá a fazer, porque certamente não é para sermos tão levianos com a dádiva que nos foi concedida.
Aproveitem a vida!
Rafael
Tuesday, February 19, 2008
Doze Palavras, Doze Imagens
A KA resolveu apadrinhar este Blog lançando-me um desafio. Doze palavras, que tentem revelar a minha personalidade, se possível em...
Paz – o que ambiciono e que por vezes me falta
Romance – para adoçar a vida
Oculto – fascina-me o que não conheço
Felicidade – objectivo maior, que guia a minha vida
União – tudo o que conseguimos tem sentido partilhando com quem nos acompanha
Novidade – sempre, a monotonia é um perigo para todas as relações
Destino – somos nós que o fazemos
Igualdade – é um sonho, constantemente posto à prova
Dançar – com as palavras, com os sons, permite sonhar
Aventura – faz-me sentir vivo
Demónio – todos temos os nossos, mais ou menos controlados
Existência – o nosso maior bem, tantas vezes mal aproveitado
Doze palavras são apenas um reflexo, mas penso que permitem visualizar uma imagem.
Aproveitem a vida!
Rafael
Paz – o que ambiciono e que por vezes me falta
Romance – para adoçar a vida
Oculto – fascina-me o que não conheço
Felicidade – objectivo maior, que guia a minha vida
União – tudo o que conseguimos tem sentido partilhando com quem nos acompanha
Novidade – sempre, a monotonia é um perigo para todas as relações
Destino – somos nós que o fazemos
Igualdade – é um sonho, constantemente posto à prova
Dançar – com as palavras, com os sons, permite sonhar
Aventura – faz-me sentir vivo
Demónio – todos temos os nossos, mais ou menos controlados
Existência – o nosso maior bem, tantas vezes mal aproveitado
Doze palavras são apenas um reflexo, mas penso que permitem visualizar uma imagem.
Aproveitem a vida!
Rafael
Saturday, February 16, 2008
Início
O que me leva a escrever? Talvez para o filho que não tive... para os risos que não ouvi... para os choros que não acalmei... no fundo, para as esperanças que ainda não perdi de ser mais feliz, de encontrar nesta vida um sentido maior que não a simples passagem. Talvez por mim, talvez por ti. Para que nunca tenha de dizer adeus...
Este espaço já existiu antes, mas quis recomeçá-lo, desde a primeira letra. Porque saber que posso partir do zero, corrigir os erros, consertar os estragos, é das coisas que me dá ânimo para encarar o mundo. E porque, simplesmente, quero encará-lo!
Este espaço já existiu antes, mas quis recomeçá-lo, desde a primeira letra. Porque saber que posso partir do zero, corrigir os erros, consertar os estragos, é das coisas que me dá ânimo para encarar o mundo. E porque, simplesmente, quero encará-lo!
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