Tuesday, October 20, 2009

Não quero seguir esse caminho

Tenho medo daquilo em que me estou aos poucos a transformar. Tenho medo de cada vez mais estar a ser engolido pela sociedade actual, renegando os valores que sempre me guiaram e dos quais sempre me orgulhei.

Um destes dias saí do emprego, para regressar a casa. Coloquei o MP3 nos ouvidos e preparei-me para me refugiar na música, pois a paciência para ouvir conversas banais há muito que se esgotou. Fui então abordado por um sem-abrigo, que me pediu algo para poder comer. Fixei-o nos olhos e abanei negativamente a cabeça, sem me deter. Quando estava prestes a entrar na boca do metro, parei, ainda com o olhar daquele homem no pensamento. Sim, daquele homem. Quem era eu para ignorar assim alguém que estava com fome? Como poderia levar para casa aquela súplica silenciosa, como se não tivesse sido nada?

Voltei atrás e despejei-lhe nas mãos todas as moedas que tinha, retirando-me antes que ele pudesse agradecer, pois eu não merecia tal gentileza. Mas a dor não passou, nem passará. O sem-abrigo continua lá, dependente de pessoas que parem para o ajudar, que reconheçam que ele existe. E tenho medo do dia em que seguirei em frente, pois isso significará que o verdadeiro proscrito pela sociedade serei eu...

Saturday, February 21, 2009

GRITA!!!

Saí de casa sem rumo, espelho da confusão que era agora a minha vida. Tinha mil pensamentos na cabeça, sendo o simples esforço de tentar ordená-los demasiado penoso.Como tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto? Em que altura da vida tinha perdido a convicção que sempre me caracterizara? Logo eu, que sempre desprezei quem desaproveitava o dom da vida e fugia da forma mais cobarde aos problemas, estava agora a questionar-me se valeria a pena continuar.

Quase sem dar por isso estava estacionado junto ao Cabo Espichel, lugar onde desde sempre costumava ir para meditar. Estava sozinho, a tempestade que se começava a manifestar não convidava a passeios. Quem me tinha conduzido ali? A minha consciência ou algo superior, que me queria obrigar a tomar uma decisão?

O vento soprava agora com violência e começava a chover abundantemente. Mas não me sentia desconfortável, antes pelo contrário. A visão daquele mar poderoso, violento, incansável tinha-me aclarado a mente. Aproximei-me da beira, para melhor contemplar aquele espectáculo proporcionado pela natureza. Lentamente abri os braços, sentindo o vento a envolver-me. Olhei para cima, enfrentando a chuva que me fustigava a cara, cada gota sentida mais intensamente que a anterior.

Quem era eu para ter o direito de desistir, perante aquela manifestação de força? Consegues sentir o mar? O vento? A chuva? Eles nunca desistirão, eles são a natureza! GRITA-LHES! SENTE! TU ÉS A NATUREZA! VIVE-A!

O vento projectou-me para trás, fazendo-me cair de costas. Não sei quanto tempo fiquei ali no chão, imóvel, mas a sentir-me mais vivo do que nunca. Quando a tempestade começou a acalmar, levantei-me. A quem quer que me tenha levado ali, obrigado. Nunca esquecerei esta lição.

Sunday, November 16, 2008

Adeus, Mago

- Olá, amigo. Como te sentes hoje?

Nos últimos meses era aquele o meu ritual pela manhã, sentar-me ao pé do Mago, o meu companheiro de tantos anos, tentando dar-lhe um pouco do conforto que a doença teimava em não lhe permitir.

Não conseguia vê-lo como um cão, não quando havia tanto sentimento naquele olhar. Tinha perdido a conta os passeios que tínhamos dado, os abraços que tínhamos trocado, as brincadeiras que duravam horas. Mesmo os momentos em que ficávamos em silêncio, contemplando o pôr-do-sol, tinham contribuído para a criação de um laço tão forte entre nós que nunca poderia ser visto como a de uma simples relação homem / mascote. Não, ele era um amigo, que sempre esteve presente tanto nos bons como nos maus momentos. O seu olhar dizia mais do que muitas palavras, quem se atrevia a dizer que os cães não falavam?

Mas o Mago estava velho, assolado por todas aquelas doenças próprias duma idade avançada. Já não se levantava da sua cama junto à lareira, donde teimava em continuar a acompanhar toda a actividade da casa, sofrendo por não poder participar. Sentava-me ao lado dele e falávamos durante horas, relembrando aventuras e desventuras. Sempre que me levantava, ele tentava acompanhar-me, mas sem conseguir. Não sei o que mais o magoaria, o esforço da tentativa ou a frustração de não conseguir.

O estado dele piorava de dia para dia, levando-me cada vez mais a interiorizar a ideia de que ele não aguentaria muito mais, ou melhor, eu não aguentaria continuar a vê-lo assim. Uma manhã ganhei coragem e peguei no comprimido que o veterinário me tinha dado há três meses atrás. O egoísmo que me tinha impedido de aceitar a separação nessa altura era o mesmo que agora me impedia de o ver sofrer, mas que fazer? Um ser tão nobre não merecia continuar a viver assim, se é que aquilo se podia chamar viver.

Sentei-me a seu lado, colocando a sua cabeça no meu colo. Notava-se que as minhas festas lhe aliviavam a dor, tornando a sua respiração mais calma, menos sofrida. Por momentos os nossos olhares cruzaram-se... ele sabia o que eu ia fazer. Quando as minhas lágrimas começaram a cair, lambeu-me gentilmente a mão, como que dando o seu consentimento. Coloquei-lhe o adeus na boca e fiquei ali, sentindo o seu coração bater até ao fim.

- Perdoa-me, Mago, porque eu nunca me perdoarei...

Tuesday, October 28, 2008

Já não me importa

Diz-me abertamente, esperas algo de mim? Pensarás que estarei ainda destinado a grandes feitos? Ou para ti sou apenas mais um número, contabilizado nesse enorme balanço a que chamas humanidade?

Dói-me a alma, Sonho, por tanto querer e pouco conseguir. Dói-me o corpo, Vida, por tanto lutar e nada conquistar. Sinto-me um joguete nas mãos de quem não conheço, refém dos caprichos de quem reneguei. É esse o meu castigo, ficar eternamente na dúvida sobre o que poderia ter sido? Pobre de ti, que julgas assim punir-me. E pobre de mim, por já não me importar com tal destino.

Thursday, October 16, 2008

O céu não é o limite

Por vezes sinto que a minha esperança no futuro do mundo se esvai por completo. Basta folhear um jornal, onde numa página se relata que morrem centenas de crianças por dia por causas evitáveis, enquanto na página seguinte se descobre que num qualquer país árabe se vai construir um prédio com mais de um quilómetro de altura.

Não me restam dúvidas que o homem se preocupa em chegar ao céu antes de resolver os seus problemas em terra. E quando assim é, as bases que sustentam tais feitos são frágeis, e têm a ruína como destino final. Só espero que dos destroços surja uma nova geração que tenha as prioridades mais humanizadas, e que saiba que as asas se ganham com atitudes, não com metros de construção.

Thursday, August 28, 2008

Ainda não

Vejo-te mas não te sinto
Sinto-te mas não te tenho
Tenho-te mas não te conheço
Conheço-te mas não te quero

Sei que me aguardas, Morte
És o destino que me espera
Não tenho medo, simplesmente acho cedo
Tenho tanto para ver, tanto para sentir
Tanto para ter, tanto para conhecer

Não me queiras já, não me seduzas ainda
Deixa-me vaguear um pouco mais
Adia a minha hora derradeira
E que essa viagem se revele no fim como um novo começo.

Monday, August 18, 2008

Para onde me sopras?

Por vezes sinto-me na vida como uma folha ao vento. Arrancado da Árvore, vou andando consoante os acontecimentos, soprado daqui para acolá, sem conseguir perceber muito bem se a minha existência tem um destino ou apenas múltiplas etapas. Enquanto isso não se torna claro, apenas existo, vagueando ao sabor do vento, o qual por vezes me conduz ao contacto com as pessoas. Tocado por muitos, compreendido por poucos, sinto cada vez mais saudades do local que não conheço e que nunca alcançarei, mas onde estou certo encontraria a paz. Resta-me esperar pelo derradeiro contacto, com a Terra, de onde poderei finalmente olhar para o alto, para a minha origem, e questionar-me se o que fiz me conduziu ali ou apenas terá sido fruto do acaso. E talvez aí saiba se tudo foi em vão.

Monday, June 09, 2008

Para sempre - II

Era a cena perfeita, mãe e filho brincando no meio da relva, indiferentes a tudo e todos à sua volta. Quantas vezes já tinha presenciado aquele cenário? Quantas vezes mais iria presenciar? Ela sorridente, atenta a todos os gestos do filho, ele deliciado por ter ali a mãe, só para ele, como se o tempo tivesse parado, sem sentido. Para ele não havia horas, nem dias, nem anos, apenas uma deliciosa e perpétua brincadeira.

Não olhavam para ele, nem mesmo quando o seu rosto se encheu de lágrimas. Era sempre assim. Não suportava
mais ver e, no entanto, dia após dia ali estavam eles, a brincar como se nada fosse. Era como se o seu coração fosse esmagado, carregando consigo uma culpa desconhecida.

De repente ela levantou-se e caminhou na sua direcção. Como era linda, em todos os pormenores, desde o sorriso até à forma de andar. Chegou ao pé dele, com um sorriso triste e preocupado, pegando-lhe suavemente na mão:
- Meu amor, isto está a matar-te. Peço-te, deixa-nos ir. Tinhas-me prometido que era a última vez...
Ele abraçou-a, com toda a força que tinha, gritando-lhe:
- Não consigo!

Foi então que acordou. Estava sozinho no quarto, tendo por única companhia aquele Deus em que já não acreditava. Já tinham passado mais de 5 anos desde que tinha perdido a sua família, naquele desastre de avião, mas não havia um só dia em que o seu pensamento não os encontrasse. Tudo o torturava, o não lhe ter dado mais um beijo, o não ter tocado no cabelo do filho uma vez mais, o continuar sem perceber o porquê de lhe ter sido arrancado tão brutalmente tudo aquilo por que alguma vez sentiu amor.

Amor... que ironia. Era precisamente esse o motivo apontado na carta de despedida do louco que fez explodir o avião onde mãe e filho viajavam. Que amor? Que Deus? Que vida lhe restava? Voltou a deitar-se, tentando voltar a vê-los. Uma vez mais...

Tuesday, April 08, 2008

Quanto valem os Direitos Humanos?

A propósito do possível boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim, ouvi ontem as palavras do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Foi com incredulidade que o ouvi afirmar que é utópico pretender isolar a China pois ela é demasiado grande, e o mundo precisa dela.

Não está aqui em causa o boicote ou não, cuja eficácia até seria mínima, mas o verdadeiro alcance destas palavras. É raro um político ter esta coragem, de dizer abertamente que os interesses económicos estão acima dos direitos humanos. Fosse um qualquer país insignificante, pois viriam as sanções económicas, as declarações inflamadas sobre a obrigatoriedade de respeitar os direitos humanos, as ameaças de isolamento. Mas tratando-se de um país com mais de um bilião de consumidores, o discurso suaviza-se, outros valores entram em cena, afinal não convém incomodar o gigante.

No fundo, o que pesará na consciência o esmagar de um qualquer povo perdido nos Himalaias, comparado com a possibilidade de maltratar a nova galinha dos ovos de ouro? Pouco ou nada, certamente, e outras oportunidades haverão para os políticos manifestarem a sua faceta humanista, oportunidades que não mexam com a ordem vigente.

Pois a mim dói, quase tanto como o sentimento de impotência com que ouço as palavras e presencio os actos. Resta-me o desprezo absoluto para com essa raça que nos governa, e que quase nos faz esquecer que antes de consumidores somos pessoas.

Thursday, March 20, 2008

Para sempre - Parte I

Acordou sobressaltado. Olhou para o relógio, faltavam alguns minutos para as 3 da madrugada. O avião rasgava agora os céus em pleno Índico, indiferente à paisagem e ao seu destino.

Olhou para ela, a sua companheira de toda a vida. Como ele gostava de a ver dormir, com aquela calma que só emana das pessoas puras. Que paixão ele continuava a sentir por aquela mulher, que as rugas e alguns cabelos brancos teimavam em tentar envelhecer.

A sua paixão não foi um caso de amor à primeira vista, tiveram a felicidade de ser primeiro amigos, amizade essa que continuava a ser a trave mestra do seu relacionamento. Ainda hoje discutiam quem se tinha apaixonado primeiro, revivendo todos os momentos antes do primeiro beijo. Nunca conseguiam chegar a consenso, apenas que a paixão sempre esteve lá, escondida, à espera do momento certo para se revelar.

Quanto a ele, sabia perfeitamente qual tinha sido o momento, na casa de férias de uns amigos. Ela tinha-se encostado à ombreira da porta, ficando a olhar para um jogo qualquer com que alguns se entretinham, e ele ficou a observá-la. O aperto no peito, o disparar do coração não lhe deixaram dúvidas, era aquela a mulher com quem queria viver todas as vidas.

Tinham sido felizes até então. E para isso bastava cumprirem a única jura que fizeram, amar-se e envelhecer um junto ao outro. Mas isso estava prestes a terminar... O que mais o enraivecia era a impotência para lutar contra o destino, vontade divina ou entidade que realmente regia as suas vidas.

Acariciou-lhe os cabelos, deu-lhe um beijo na face e sussurrou-lhe:
- Procura por mim na próxima vida...

E o avião explodiu.