Sunday, November 16, 2008

Adeus, Mago

- Olá, amigo. Como te sentes hoje?

Nos últimos meses era aquele o meu ritual pela manhã, sentar-me ao pé do Mago, o meu companheiro de tantos anos, tentando dar-lhe um pouco do conforto que a doença teimava em não lhe permitir.

Não conseguia vê-lo como um cão, não quando havia tanto sentimento naquele olhar. Tinha perdido a conta os passeios que tínhamos dado, os abraços que tínhamos trocado, as brincadeiras que duravam horas. Mesmo os momentos em que ficávamos em silêncio, contemplando o pôr-do-sol, tinham contribuído para a criação de um laço tão forte entre nós que nunca poderia ser visto como a de uma simples relação homem / mascote. Não, ele era um amigo, que sempre esteve presente tanto nos bons como nos maus momentos. O seu olhar dizia mais do que muitas palavras, quem se atrevia a dizer que os cães não falavam?

Mas o Mago estava velho, assolado por todas aquelas doenças próprias duma idade avançada. Já não se levantava da sua cama junto à lareira, donde teimava em continuar a acompanhar toda a actividade da casa, sofrendo por não poder participar. Sentava-me ao lado dele e falávamos durante horas, relembrando aventuras e desventuras. Sempre que me levantava, ele tentava acompanhar-me, mas sem conseguir. Não sei o que mais o magoaria, o esforço da tentativa ou a frustração de não conseguir.

O estado dele piorava de dia para dia, levando-me cada vez mais a interiorizar a ideia de que ele não aguentaria muito mais, ou melhor, eu não aguentaria continuar a vê-lo assim. Uma manhã ganhei coragem e peguei no comprimido que o veterinário me tinha dado há três meses atrás. O egoísmo que me tinha impedido de aceitar a separação nessa altura era o mesmo que agora me impedia de o ver sofrer, mas que fazer? Um ser tão nobre não merecia continuar a viver assim, se é que aquilo se podia chamar viver.

Sentei-me a seu lado, colocando a sua cabeça no meu colo. Notava-se que as minhas festas lhe aliviavam a dor, tornando a sua respiração mais calma, menos sofrida. Por momentos os nossos olhares cruzaram-se... ele sabia o que eu ia fazer. Quando as minhas lágrimas começaram a cair, lambeu-me gentilmente a mão, como que dando o seu consentimento. Coloquei-lhe o adeus na boca e fiquei ali, sentindo o seu coração bater até ao fim.

- Perdoa-me, Mago, porque eu nunca me perdoarei...

3 comments:

Guguita said...

Muito triste!!!! Mas tenho a certeza que fica a alegria de lhe ter certamente proporcionado uma vida digna e feliz....

Guguita said...

Olá Rafael...
O que escreve é muito bonito e muito sentido... de facto parecia muito real... Parabéns!
Quem sabe um dia poderá escrever a história da minha vida!!!

Mais uma vez parabéns.

gotadevidro said...

Li....Chorei....Tive um cão que adorei e perdi.
Denotas uma sensibilidade de alma fora do comum.

Um poder de escrita fantástico.

jitos meus